Dr. Daumiro Tanure
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Como é feito o diagnóstico de TDAH em adultos

Passo a passo da avaliação diagnóstica de TDAH em adultos: anamnese, escalas validadas, diagnóstico diferencial e o que esperar da consulta.

Por Dr. Daumiro Tanure

O diagnóstico de TDAH em adultos é clínico. Não existe exame de sangue, ressonância ou teste neuropsicológico isolado que “prove” o transtorno. O que existe são critérios bem definidos, instrumentos validados e uma entrevista conduzida por profissional experiente — e, juntos, esses elementos permitem um diagnóstico bastante confiável.

Na avaliação diagnóstica, costumo investigar três grandes eixos: a presença dos sintomas atuais, a existência de sinais antes dos 12 anos e o impacto funcional nos diferentes domínios da vida. Essa tríade é a base do DSM-5-TR (APA, 2022) e é o que diferencia TDAH de traços de personalidade ou de outras condições psiquiátricas.

1. Anamnese estruturada

A consulta começa com uma conversa longa. Não é questionário rápido. Exploramos:

  • História escolar, desde o ensino fundamental
  • Desempenho acadêmico e profissional ao longo da vida
  • Padrão de relacionamentos familiares e afetivos
  • Uso de substâncias, hábitos de sono, rotina
  • Histórico familiar (TDAH tem forte componente genético)
  • Comorbidades: ansiedade, depressão, uso de substâncias, dificuldades de aprendizagem, sono

Boa parte do diagnóstico se faz nos detalhes que aparecem nessa conversa — não nas respostas “sim/não” de uma checklist.

2. Critérios diagnósticos

O DSM-5-TR exige:

  • Pelo menos 5 sintomas de desatenção e/ou 5 de hiperatividade-impulsividade, persistentes por ao menos 6 meses
  • Alguns sintomas presentes antes dos 12 anos
  • Prejuízo em dois ou mais contextos (trabalho, estudo, relacionamentos)
  • Sintomas não explicados por outra condição

O critério da idade de início é especialmente importante. Na prática, adultos raramente lembram com precisão de tudo que acontecia aos 10 anos — por isso é útil envolver familiares ou consultar boletins escolares antigos, quando possível (Sibley et al., 2018).

3. Escalas validadas

Aplico instrumentos como ASRS (Adult ADHD Self-Report Scale, da OMS), WURS (Wender Utah Rating Scale, para sintomas retrospectivos da infância) e, quando necessário, escalas específicas para comorbidades (BDI para depressão, BAI para ansiedade). As escalas ajudam a estruturar o raciocínio — não substituem a entrevista clínica.

4. Diagnóstico diferencial

Um dos pontos mais críticos. Sintomas parecidos com TDAH podem aparecer em:

  • Transtornos de ansiedade (especialmente TAG)
  • Depressão
  • Transtorno bipolar
  • Distúrbios de sono (apneia, insônia crônica)
  • Hipo/hipertireoidismo
  • Uso de substâncias, cafeína em excesso
  • Trauma e TEPT

Na minha experiência, pelo menos 1 em cada 4 pacientes que chega com “suspeita de TDAH” sai do consultório com diagnóstico diferente — ou com mais de um diagnóstico simultâneo. Comorbidades são a regra, não exceção (Sobanski, 2006).

5. Avaliação neuropsicológica — quando é útil?

Não é obrigatória. É útil em casos específicos: suspeita de dificuldades de aprendizagem associadas, perfil cognitivo muito discrepante, casos com queixas predominantemente executivas em que a entrevista deixou dúvidas, ou laudos para fins acadêmicos mais robustos. Quando indicada, trabalho em parceria com neuropsicólogos de confiança.

6. Fechamento do diagnóstico e plano terapêutico

Se o diagnóstico se confirma, a conversa segue para o plano: medicação (quando indicada), psicoterapia, ajustes de rotina, coaching, estratégias comportamentais. Explico cada opção com clareza, expectativas realistas e riscos. O paciente participa das decisões — medicina com protagonismo do paciente funciona melhor.

Um padrão frequente entre os pacientes adultos é a surpresa com a fala: “Então faz sentido.” O diagnóstico, para quem convive há décadas com os sintomas sem explicação, costuma ter um efeito terapêutico por si só — antes mesmo do primeiro comprimido.

Referências

  1. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5-TR), 2022.
  2. Kooij JJS, et al. Updated European Consensus Statement on diagnosis and treatment of adult ADHD. European Psychiatry, 2019.
  3. Sibley MH, et al. Late-Onset ADHD Reconsidered. American Journal of Psychiatry, 2018.
  4. Epstein JN, Loren RE. Changes in the Definition of ADHD in DSM-5. Journal of Attention Disorders, 2013.
  5. Sobanski E. Psychiatric comorbidity in adults with ADHD. European Archives of Psychiatry and Clinical Neuroscience, 2006.

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Este artigo tem caráter informativo e educacional. Não substitui consulta médica individualizada.

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