Dr. Daumiro Tanure
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TDAH: mitos e verdades que ainda circulam

Os mitos mais comuns sobre TDAH em adultos — diagnóstico, medicação, origem do transtorno — e o que a ciência clínica realmente mostra.

Por Dr. Daumiro Tanure

Apesar de ser um dos transtornos mais estudados da psiquiatria, o TDAH ainda carrega mitos que aparecem todos os dias na consulta. Pacientes chegam com medo, familiares chegam com dúvidas, e às vezes profissionais mal informados repetem frases que atrasam o diagnóstico e o tratamento.

Pacientes que chegam ao consultório frequentemente trazem perguntas do tipo: “não é só falta de disciplina?”, “essa medicação não é tarja preta perigosa?”, “TDAH não é diagnóstico em excesso hoje em dia?”. Vale separar o que é mito do que é dado clínico.

Mito 1: “TDAH é coisa de criança”

Falso. Cerca de 60% dos casos persistem na vida adulta (Faraone et al., 2021). A apresentação muda — hiperatividade motora vira inquietação interna, impulsividade se desloca para o plano cognitivo — mas o transtorno permanece. E muitos adultos diagnosticados hoje nunca foram diagnosticados na infância.

Mito 2: “TDAH é falta de disciplina ou caráter”

Falso. TDAH é um transtorno neurobiológico com base genética importante. Estudos de imagem mostram diferenças funcionais e estruturais em circuitos fronto-estriatais, responsáveis por atenção e controle inibitório. Dizer que alguém com TDAH “só precisa se esforçar mais” é como dizer que alguém com miopia “só precisa enxergar melhor”.

Mito 3: “Se fosse TDAH de verdade, teria sido diagnosticado na infância”

Falso. Muitos adultos — especialmente mulheres, como discuto em TDAH em mulheres — passaram a infância sem diagnóstico porque a apresentação foi mais silenciosa, porque houve compensações sociais, ou porque o ambiente não reconheceu os sinais. O diagnóstico tardio é clinicamente válido e cada vez mais comum (Sibley et al., 2018).

Mito 4: “Metilfenidato é droga pesada e vicia”

Falso, com ressalva. O metilfenidato, em doses terapêuticas, orais, tomadas conforme prescrição, tem potencial de dependência muito baixo. O medicamento é controlado justamente porque exige acompanhamento médico — não porque seja “droga pesada”. Pacientes que usam estimulantes como parte do tratamento bem conduzido não desenvolvem dependência (Cortese et al., 2018).

Mito 5: “TDAH está sendo diagnosticado demais”

Meio-verdade. Há sim casos de diagnóstico apressado feitos com entrevistas curtas ou baseados só em autoavaliações na internet. Ao mesmo tempo, o TDAH continua sendo subdiagnosticado em adultos — especialmente mulheres e idosos. A solução não é duvidar do diagnóstico, é buscar avaliações bem feitas por profissionais qualificados.

Mito 6: “Quem tem TDAH é desorganizado, mas cria muito”

Estereótipo simplista. Existe variabilidade grande entre pacientes. Alguns têm perfis mais criativos, outros são altamente analíticos. O que é consistente é a disfunção executiva — não um “dom” automático.

Mito 7: “Dá para tratar só com rotina e alimentação”

Falso como tratamento isolado. Rotina, sono, alimentação, exercício e psicoterapia são pilares importantes do tratamento. Em quadros leves, podem bastar. Mas em quadros moderados e graves, a medicação, quando bem indicada, tem o maior impacto clínico — e deixar de oferecê-la por preconceito prejudica o paciente.

Mito 8: “Medicação vai mudar minha personalidade”

Falso. Bem dosada, a medicação não muda personalidade — ela reduz sintomas que atrapalham a pessoa expressar quem ela é. Pacientes frequentemente relatam o contrário: “pela primeira vez estou conseguindo ser eu mesmo sem estar o tempo todo lutando contra meu cérebro”. Se a medicação está deixando alguém “sem reação”, “apático” ou “outro”, a dose precisa ser revisada — não é efeito desejado.

Mito 9: “Se o estimulante não deu certo, não há solução”

Falso. Existem várias classes de medicamentos para TDAH: metilfenidato de diferentes formulações, lisdexanfetamina, atomoxetina, bupropiona, clonidina, guanfacina. Quando um não funciona ou gera efeitos colaterais indesejáveis, há alternativas. Veja Medicamentos para TDAH para aprofundar.

Mito 10: “TDAH é ‘moda’”

Falso. O que é novo é a visibilidade, não o transtorno. TDAH aparece descrito na literatura médica há mais de 200 anos, com nomes diferentes. O aumento de diagnósticos em adultos reflete melhor reconhecimento, não epidemia — e ainda assim estamos aquém do número real de pessoas que se beneficiariam de tratamento.

Referências

  1. Faraone SV, et al. The World Federation of ADHD International Consensus Statement. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 2021.
  2. Sibley MH, et al. Late-Onset ADHD Reconsidered. American Journal of Psychiatry, 2018.
  3. Cortese S, et al. Comparative efficacy and tolerability of medications for ADHD. The Lancet Psychiatry, 2018.
  4. Kooij JJS, et al. Updated European Consensus Statement on diagnosis and treatment of adult ADHD. European Psychiatry, 2019.

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Este artigo tem caráter informativo e educacional. Não substitui consulta médica individualizada.

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