CBD vs THC: diferenças, indicações e como escolher a formulação
Diferenças entre CBD e THC, quando usar cada um, proporções terapêuticas comuns e como escolher a formulação certa para cada quadro clínico.
Por Dr. Daumiro Tanure
Uma das primeiras perguntas que aparecem em consulta é: “doutor, devo usar CBD ou CBD com THC?”. A resposta depende do quadro clínico, das comorbidades, do histórico de uso de substâncias e, claro, da resposta individual. Não existe fórmula universal — existe escolha clínica fundamentada.
Um ponto que tenho discutido com pacientes é que a mídia simplifica demais: CBD como “do bem”, THC como “do mal”. A realidade é mais rica. Ambas as moléculas têm aplicações terapêuticas legítimas, e muitas vezes funcionam melhor em sinergia do que isoladas.
CBD (canabidiol)
Propriedades principais. Ansiolítico, anticonvulsivante, anti-inflamatório, antipsicótico em doses altas, neuroprotetor. Não produz euforia nem alteração perceptiva significativa (Blessing et al., 2015).
Indicações clínicas mais comuns.
- Transtornos de ansiedade
- Epilepsia refratária (indicação formal, inclusive em bula)
- TEA (crianças e adultos)
- Insônia associada a ansiedade
- Inflamações crônicas
- Estresse pós-traumático
Efeitos adversos. Geralmente leves — sonolência, boca seca, queda discreta de pressão. Atenção às interações com o sistema enzimático hepático (CYP450), relevantes para antiepilépticos, anticoagulantes e alguns psicofármacos.
THC (tetra-hidrocanabinol)
Propriedades principais. Analgésico, relaxante muscular, orexígeno, antiemético, ansiolítico em doses muito baixas, euforizante em doses altas.
Indicações clínicas.
- Dor crônica (especialmente dor neuropática e dor oncológica)
- Fibromialgia
- Insônia resistente
- Náuseas e vômitos refratários
- Espasticidade (esclerose múltipla)
- Caquexia e perda de apetite
Efeitos adversos. Tontura, sedação, taquicardia, alteração de atenção, ansiedade paradoxal em doses inadequadas. Contraindicado em pacientes com história de psicose ou risco psicótico importante.
As formulações na prática
As formulações comerciais em geral combinam CBD e THC em proporções específicas. As mais comuns são:
- CBD isolado (0% THC): primeira escolha em ansiedade, TEA, epilepsia, pacientes com preocupações com psicoatividade.
- CBD full spectrum (até 0,3% THC): mantém o efeito entourage com mínimo de psicoatividade. Boa escolha para ansiedade, insônia, TEA e condições inflamatórias.
- CBD:THC 20:1 ou 10:1: bom equilíbrio para insônia, dor moderada, fibromialgia em doses pequenas.
- CBD:THC 1:1: para dor crônica, fibromialgia resistente, espasticidade.
- THC predominante: uso restrito, geralmente em dor oncológica, espasticidade severa ou insônia refratária com supervisão próxima.
Como escolho na consulta
Na avaliação diagnóstica, costumo investigar:
- Qual o sintoma-alvo principal?
- Quais as comorbidades?
- Há risco de interação com a medicação atual?
- O paciente tem histórico de uso de substâncias ou de quadro psicótico?
- Qual o contexto social — trabalha com máquinas, dirige muito, trabalha em horário noturno?
Com essas respostas, a formulação se desenha. Em muitos pacientes começo com CBD full spectrum, avalio resposta em 4 a 8 semanas, e ajusto para uma combinação com mais THC se necessário.
Erros comuns a evitar
- Escolher pela marca, não pelo perfil. Marketing não substitui critério clínico.
- Subdosar por medo. Paciente desiste achando “não funciona” — e era só questão de ajustar a dose.
- Sobrepor a outros medicamentos sem avaliação. Principalmente benzodiazepínicos, opioides e antiepilépticos.
- Esperar resposta em 3 dias. Cannabis, especialmente em quadros crônicos, pede titulação paciente.
Para aprofundar, veja O que é cannabis medicinal e, se precisa do passo a passo administrativo, Como obter prescrição no Brasil.
Referências
- Blessing EM, Steenkamp MM, Manzanares J, Marmar CR. Cannabidiol as a Potential Treatment for Anxiety Disorders. Neurotherapeutics, 2015;12(4):825–836.
- Shannon S, Lewis N, Lee H, Hughes S. Cannabidiol in Anxiety and Sleep: A Large Case Series. The Permanente Journal, 2019;23:18-041.
- Mechoulam R, Parker LA. The endocannabinoid system and the brain. Annual Review of Psychology, 2013;64:21–47.
- Sagy I, et al. Safety and Efficacy of Medical Cannabis in Fibromyalgia. Journal of Clinical Medicine, 2019;8(6):807.
Avaliação clínica em TDAH
Atendimento por telemedicina para todo o Brasil.
Este artigo tem caráter informativo e educacional. Não substitui consulta médica individualizada. A prescrição de cannabis medicinal segue a RDC ANVISA 660/2022 e deve ser feita por médico habilitado após análise do caso.
Avaliação clínica em TDAH
Telemedicina para todo o Brasil.