Dr. Daumiro Tanure
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O que é cannabis medicinal e como funciona o tratamento

Entenda o que é cannabis medicinal, como ela atua no organismo, a regulamentação no Brasil e como é conduzido um tratamento seguro e baseado em evidências.

Por Dr. Daumiro Tanure

Cannabis medicinal deixou de ser tabu na medicina brasileira. Com a publicação da RDC ANVISA 660/2022, o acesso a produtos à base de canabidiol (CBD) e, em casos específicos, com THC, passou a ser mais claro. Ainda assim, a informação confiável para pacientes é escassa — o que alimenta tanto expectativas irreais quanto medos infundados.

Na prática clínica, é comum observar que os pacientes chegam à consulta já tendo lido muito (e muita coisa errada) sobre cannabis. Uma das funções principais do atendimento é separar marketing de evidência, promessa vazia de benefício real, e posicionar a cannabis medicinal no lugar certo dentro do plano terapêutico.

O que é cannabis medicinal

Cannabis medicinal é o uso terapêutico de compostos derivados da planta Cannabis sativa, prescritos por médico, produzidos sob controle farmacêutico e utilizados em condições clínicas específicas. A planta contém mais de 100 canabinoides, além de dezenas de terpenos e flavonoides — e o efeito terapêutico depende da formulação, da dose e do perfil clínico do paciente.

Os dois canabinoides mais estudados são:

  • CBD (canabidiol): sem efeito psicoativo relevante. Ansiolítico, anticonvulsivante, anti-inflamatório, neuroprotetor.
  • THC (tetra-hidrocanabinol): psicoativo. Em doses terapêuticas baixas, é analgésico, relaxante muscular, orexígeno e, paradoxalmente, ansiolítico.

Outros canabinoides como CBG, CBN e CBC, além dos terpenos (linalol, mirceno, beta-cariofileno), compõem o que se chama de efeito entourage — o sinergismo que faz formulações de espectro amplo frequentemente superarem moléculas isoladas.

Como age no organismo: o sistema endocanabinoide

O corpo humano tem um sistema regulatório próprio que responde aos canabinoides: o sistema endocanabinoide, descrito nos anos 1990 a partir de pesquisas pioneiras de Raphael Mechoulam na Hebrew University of Jerusalem (Mechoulam & Parker, 2013). Esse sistema inclui:

  • Receptores CB1 (concentrados no sistema nervoso central)
  • Receptores CB2 (sistema imunológico e tecidos periféricos)
  • Moléculas produzidas pelo próprio corpo (anandamida, 2-AG)
  • Enzimas que regulam a ativação e degradação dessas moléculas

O sistema endocanabinoide regula sono, humor, dor, apetite, memória, resposta imune, inflamação e tolerância ao estresse. Desequilíbrios nesse sistema estão envolvidos em diversas condições — o que explica a amplitude de aplicações clínicas dos canabinoides.

Regulamentação no Brasil

A RDC ANVISA 660/2022 (que substituiu a RDC 327/2019) regula:

  • A importação de produtos à base de cannabis por pacientes com prescrição médica
  • O registro de produtos industrializados no Brasil
  • A comercialização em farmácias e drogarias autorizadas
  • Os critérios para produtos com CBD (mais acessíveis) e produtos com THC (mais restritos, para condições específicas)

A prescrição é de responsabilidade médica e não há limite legal de patologias a serem tratadas com CBD, desde que haja fundamentação clínica.

Como é um tratamento real

Um paciente que chega ao meu consultório para avaliação de cannabis medicinal passa por:

  1. Avaliação clínica completa. Investigação do quadro principal, comorbidades, medicações em uso, tentativas prévias.
  2. Discussão de expectativas. O que a cannabis pode e o que não pode oferecer para o seu caso específico.
  3. Escolha da formulação. CBD isolado, CBD full spectrum, CBD+THC em diferentes proporções — cada perfil clínico pede uma escolha diferente.
  4. Titulação lenta. Começo baixo, aumento gradual até a resposta clínica desejada.
  5. Monitoramento. Retornos regulares para ajustes, avaliação de efeitos adversos e da resposta clínica.

Na minha experiência, o paciente que entende o processo — especialmente o tempo de titulação, que pode levar semanas — é o paciente que melhor se beneficia do tratamento.

O que a cannabis não é

  • Não é “cura” mágica
  • Não é substituta automática da medicação atual
  • Não é sem efeitos colaterais (sonolência, tontura, boca seca, interações medicamentosas)
  • Não é contraindicação para medicamentos convencionais — frequentemente atua como adjuvante

Para entender a diferença entre CBD e THC e como escolher a formulação, veja CBD vs THC. Para o passo a passo da prescrição no Brasil, leia Como obter prescrição de cannabis medicinal no Brasil.

Referências

  1. Mechoulam R, Parker LA. The endocannabinoid system and the brain. Annual Review of Psychology, 2013;64:21–47.
  2. ANVISA. Resolução da Diretoria Colegiada RDC 660/2022.
  3. Shannon S, Lewis N, Lee H, Hughes S. Cannabidiol in Anxiety and Sleep: A Large Case Series. The Permanente Journal, 2019;23:18-041.
  4. Blessing EM, Steenkamp MM, Manzanares J, Marmar CR. Cannabidiol as a Potential Treatment for Anxiety Disorders. Neurotherapeutics, 2015;12(4):825–836.

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Este artigo tem caráter informativo e educacional. Não substitui consulta médica individualizada. A prescrição de cannabis medicinal segue a RDC ANVISA 660/2022 e deve ser feita por médico habilitado após análise do caso.

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