Dr. Daumiro Tanure
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Como obter prescrição de cannabis medicinal no Brasil: passo a passo

Passo a passo prático para obter cannabis medicinal no Brasil: consulta, prescrição, autorização ANVISA, importação ou compra em farmácia. Custos e prazos.

Por Dr. Daumiro Tanure

O acesso à cannabis medicinal no Brasil ficou significativamente mais simples nos últimos anos, mas ainda gera dúvidas. Pacientes que chegam ao consultório frequentemente perguntam: “preciso de Habeas Corpus?”, “tenho que importar?”, “dá para comprar em farmácia?”. Vale esclarecer o caminho atual, passo a passo.

O que mudou com a RDC 660/2022

A RDC ANVISA 660/2022 consolidou o acesso por duas principais vias:

  • Importação direta pelo paciente, com autorização da ANVISA, para produtos não registrados no Brasil.
  • Compra em farmácia, para produtos já registrados no país ou autorizados sob a categoria “Produto de Cannabis”.

Ambas as vias exigem prescrição médica — e é aqui que a consulta com profissional habilitado entra.

Passo 1 — Avaliação clínica

Uma consulta adequada para prescrição de cannabis medicinal não é rápida. Envolve:

  • Anamnese detalhada do quadro principal e comorbidades
  • Revisão de medicações em uso (interações importam muito)
  • Discussão de histórico — especialmente uso de substâncias, quadros psicóticos, doenças cardiovasculares
  • Alinhamento de expectativas
  • Escolha da formulação adequada

Na minha experiência, essa primeira consulta costuma durar 60 a 90 minutos.

Passo 2 — Prescrição

A receita médica precisa conter:

  • Identificação do paciente
  • Nome do produto (incluindo concentração de CBD e THC)
  • Posologia
  • Quantidade autorizada para o período de tratamento
  • CID (Código Internacional de Doenças)
  • Registro e assinatura do médico

Para produtos com apenas CBD, a receita é tipo branca (receituário comum). Para produtos com THC acima de 0,2%, é exigida receita tipo B (azul, controle especial).

Passo 3 — Caminho A: compra em farmácia

Para produtos registrados no Brasil:

  1. Leve a receita à farmácia autorizada (nem todas têm — é preciso verificar)
  2. A farmácia realiza o processo de compra ou, em alguns casos, importa diretamente
  3. Produto é dispensado conforme prescrição

Vantagens: prazo mais curto, menos burocracia, atendimento presencial. Desvantagens: variedade ainda limitada de produtos, custo geralmente mais alto que a importação direta.

Passo 3 — Caminho B: importação direta pelo paciente

Para produtos não registrados no Brasil (a maioria dos produtos de cannabis importados):

  1. O paciente faz cadastro no portal ANVISA (https://solicita.anvisa.gov.br)
  2. Anexa receita, laudo médico e documentos pessoais
  3. Solicita “Autorização para Importação de Produto à Base de Cannabis”
  4. Prazo de análise: geralmente 10 a 20 dias
  5. Com a autorização (válida por 2 anos), compra diretamente no fornecedor internacional (geralmente nos EUA, Canadá, Reino Unido)
  6. Produto chega em 10 a 30 dias via correio

Associações de pacientes brasileiras também fornecem produtos via decisão judicial (Habeas Corpus específico para cultivo ou importação), mas esse caminho hoje é menos necessário para quem tem prescrição clara e indicação reconhecida.

Custos aproximados

  • Consulta inicial: varia conforme o profissional. Costuma ser mais longa e, portanto, mais cara que a consulta psiquiátrica comum.
  • Medicamento mensal: entre R$ 300 e R$ 1.500, dependendo da dose, concentração e origem.
  • Autorização ANVISA: gratuita.
  • Retornos: geralmente a cada 30–90 dias na fase de titulação, depois espaçados.

Para casos com comprovação de hipossuficiência econômica e decisão judicial favorável, o SUS e alguns planos de saúde têm sido obrigados a fornecer o medicamento. O caminho judicial, no entanto, não é necessário para a maioria dos pacientes.

Retornos e acompanhamento

Pacientes que chegam ao consultório frequentemente subestimam a importância do acompanhamento. A titulação de cannabis medicinal raramente é perfeita de primeira — ajustes de dose, de horário, de proporção CBD:THC, tudo isso faz parte do processo. Um tratamento sem retornos é um tratamento em alto risco de abandono ou de sub-resposta.

Mitos frequentes

  • “Precisa de habeas corpus.” Falso para a maioria dos casos com prescrição e autorização ANVISA.
  • “É difícil conseguir a autorização.” Em geral, com documentação correta, a aprovação é rotineira.
  • “Só serve para epilepsia e câncer.” Falso — há indicações em TEA, fibromialgia, ansiedade, dor crônica, insônia e outras.

Para entender o que é cannabis medicinal, leia O que é cannabis medicinal. Sobre a escolha entre CBD e THC, veja CBD vs THC.

Referências

  1. ANVISA. Resolução da Diretoria Colegiada RDC 660/2022.
  2. ANVISA. Portal de Serviços — Solicitação de Importação de Produto à Base de Cannabis.
  3. Mechoulam R, Parker LA. The endocannabinoid system and the brain. Annual Review of Psychology, 2013;64:21–47.

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Este artigo tem caráter informativo e educacional. Não substitui consulta médica individualizada. A prescrição de cannabis medicinal segue a RDC ANVISA 660/2022 e deve ser feita por médico habilitado após análise do caso.

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